MITO: Todos os anos há dois momentos em que os jornais publicitam por
encomenda a existência de “falsas urgências” nos hospitais. Um desses
momentos é o mês de Agosto altura em que muitos médicos ainda vão de
férias. O outro, por volta de Janeiro, devido à maior afluência de
doentes com gripe ou com receio de a ter. Há cerca de 40 anos que
assisto à publicitação deste falso problema, ano após ano. Porque é um
falso problema? Porque se fosse um problema verdadeiro, e realmente
preocupante, seria inacreditável que não estivesse resolvido ao fim de
tantos anos.
A verdade é que aos hospitais só interessa divulgar
este problema nesta altura do ano para justificar a possibilidade de
haver demoras no atendimento. Nos restantes dias do ano a presença dos
doentes no Serviço de Urgência é benéfica e benvida porque é uma das
principais componentes para o cálculo do seu financiamento anual.
O
que são falsas urgências? Aquelas que os médicos acham que não merecem
ser atendidas no hospital? E para os doentes, o que são falsas
urgências? Ninguém tem prazer em esperar horas e horas, numa sala de
hospital à espera de uma consulta, se não pensa que o seu problema é
urgente. Mesmo para os profissionais de saúde esta diferenciação não é
linear. Tudo depende do lado em que nos encontramos.
Apesar da
globalização do acesso ao conhecimento através da net, há muita
desinformação e contrainformação que confunde mesmo quem julga estar
informado.
Se por um lado uns ensinam a auto confiança dizendo “não
procure o médico aos primeiros sintomas”, “use a medicação de conforto –
medicamentos para as dores e para a febre – que deve ter sempre em
casa”, “só deve recorrer ao médico se não melhorar”,outros
incentivam-nos a procurar o hospital à mínima duvida porque lá é a
“fonte segura”, está aberto 24 horas, fazem logo os exames que precisam e
não há restrição no acesso. Nem as taxas moderadoras servem para
moderar. A maior parte dos que recorrem a ao Serviço de Urgência
Hospitalar por motivações menos importantes são isentos. Os que pagam,
ou têm subsistemas que pagam por eles, já recorrem muito mais a
hospitais privados.
Mas se na verdade os hospitais estivessem
interessados em resolver o problema solicitavam a restrição no acesso à
urgência. Doentes com critérios para pulseira azul ou verde não teriam
acesso ao Serviço de Urgência, excepto quando enviados pelo seu Médico
de Família. Já houve quem pensasse fazê-lo mas nunca o pôs em prática.
Estou certo que a diminuição das consultas nos Serviços de Urgência
seria bastante significativa.
Os doentes informados e prudentes
não procuram o médico aos primeiros sintomas. Têm medicação de conforto
em casa para as primeiras medidas de controlo (febre, dores) e sabem que
têm sempre tempo de aceder nos dias seguintes à Unidade de Saúde onde
se encontram inscritos. Os doentes interessados sabem o horário de
Consulta Aberta ou de Consulta Não Programada do seu Médico de Família
(se não se recorda informa-se pelo telefone) e sabe que será atendido no
próprio dia em que solicita essa consulta. Todas as Unidades de Saúde
dos Cuidados de Saúde Primários têm a obrigação de atender os doentes
com problemas agudos (sintomas que se iniciaram no dia ou nos dias
anteriores) no próprio dia em que é solicitada a consulta. A consulta
será efectuada entre as 8 e as 20 horas. Não necessariamente à hora que o
doente quer. Nesta consulta o médico avaliará o problema e orientará o
doente da forma que achar mais adequada. Pode, inclusive, encontrar
justificação para o encaminhar para um Serviço de Urgência. Nesse caso o
doente será portador de uma informação clínica o que facilitará o
atendimento naquela unidade hospitalar. Na maioria dos casos, o Médico
de Família pode resolver o problema de imediato ou marcar novas
consultas de vigilância sem recurso a cuidados hospitalares.
O que
é necessário é que os utentes se interessem em saber como funciona a
Unidade de Saúde onde se encontram inscritos, quais são os horários de
atendimento do seu Médico de Família e do seu Enfermeiro de Família, o
que devem fazer para usufruir dos seus serviços de forma adequada e sem
atropelos nem esperas. Mas este é o maior problema. Quase todos sabem e
apregoam os seus direitos. Mas há direitos e deveres e destes poucos
querem saber. Apesar de todas estas informações estarem obrigatoriamente
disponíveis nas unidades de saúde, seja através dos secretários
clínicos, seja afixadas na parede, seja em “Guias de Acolhimento do
Utente” mais ou menos extensos e espalhados pelas salas de espera, são
poucos os que as lêem, são poucos os que se interessam por saber e são
muito poucos os que as sabem.
A desinformação e o défice de
cidadania conduzem a atitudes de descredibilização sem razão e a
dificuldades de acesso injustificadas. Os números de doentes atendidos
diariamente nas Unidades de Saúde do SNS são muito superiores aos
números de doentes atendidos nas unidades privadas. O seu financiamento é
substancialmente diferente e sujeito às regras de austeridade do
Estado. Não podemos comparar o incomparável. Mesmo assim a qualidade dos
serviços prestados nas Unidades de Saúde do SNS tem melhorado muito.
Merecem uma atenção particular do Governo porque se tornaram mais
eficientes. Merecem um maior reconhecimento dos utentes que continuam
numa atitude desconfiada.
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